Regina ajuda as crianças a lutar contra a Aids.
A geração da esperança
'Sobradinho' atende 1500 crianças
Crianças soropositivas aprendem tão bem quanto as saudáveis
Atendimento diminui transmissão para bebês.
Entrevista Exclusiva Alka.
Regina ajuda as crianças a lutar contra a Aids.





A infectologista e pediatra Regina Succi lembra quando o atestado de óbito era o único destino das crianças portadoras do vírus da AIDS. Há duas décadas tratando de meninos e meninas infectadas ou que convivem de alguma maneira com a doença, Regina se orgulha de dizer que considera seus 1,2 mil pacientes como filhos e que, graças aos avanços no combate à doença, está muito feliz com a oportunidade de começar a observar seus "netos" nascerem.

"No começo da epidemia, em 1984 até metade da década de 90, a gente sabia do diagnóstico e já se preparava para assinar o atestado de óbito. Hoje não", recorda-se.


Trabalho começou na década de 80

Regina é coordenadora do Centro de Atendimento da Disciplina de Infectologia Pediátrica (Ceadipe) da Unifesp, na Rua Pedro de Toledo, 924, Vila Clementino. Seu trabalho com as crianças começou da década de 80.

"Atualmente, quando uma mãe chega para mim com um bebê e eu tenho de dar a notícia de que o bebê é soropositivo é sempre muito doloroso para mim, mas eu tenho coisas boas para falar para essa mãe", explica ela.

"Falo de esperança, de vida longa, de sucesso. Falo que a criança vai conseguir crescer, chegar à idade adulta. Coisas que antes eu não conseguia falar."

Acompanhamento por cinco anos

Freqüentam o Ceadip meninos e meninas soropositivos ou filhos de pais infectados. "Mesmo quando a criança não tem AIDS, nós a acompanhamos por cinco anos." Atualmente, segundo a pediatra, o centro atende 260 crianças infectadas. Elas recebem acompanhamento regular até os 20 anos.

Além da luta diária contra a AIDS, os pacientes enfrentam batalhas contra o preconceito, a solidão e o medo de ser excluídos ao assumirem a doença diante da sociedade. "Muitas vezes, eu e os outros médicos somos as únicas pessoas com quem eles podem conversar."

Incubação em criança pode demorar um ano

Regina explica que o período de incubação do vírus numa criança pode ser de até um ano, enquanto o período de incubação no adulto pode demorar dez anos.

Na década de 80, descobria-se que uma criança era portadora do vírus da AIDS quando ela já estava manifestando sintomas da doença. "A criança adoecia de AIDS e diante do diagnóstico positivo dela atestava-se o dos pais."

A demora no diagnóstico era um grande obstáculo na luta contra a doença.

"Hoje, como o exame antiaids é feito em todo o pré-natal, fica muito mais fácil controlar a epidemia", explica. "Aqui em São Paulo atualmente, a chance de uma mãe positiva dar à luz um filho infectado é inferior a 2%."

Regina conta que está terminando de realizar um estudo sobre as taxas de transmissão no Brasil. Foram avaliadas 5,5 mil crianças no Brasil inteiro.

De cada 100 mães com HIV, 6 transmitem a doença

"O Brasil como um todo tem uma taxa de transição de em torno de 6%. Ou seja, de cada 100 mães positivas apenas seis delas transmitem o vírus para a criança", comentou.

"Carrego um peso grande nas costas, mas o resultado do trabalho compensa qualquer sacrifício", reflete. "Estou vendo as minhas meninas que eu vi nascer se transformarem em moças e os meus meninos em rapazes. É muito gratificante lutar com eles."

Fonte: Jornal da Tarde - Entrevista concedida no dia 15/01/2006 - São Paulo